Entrevistas

Entrevista: como o monitoramento por satélite está mudando a fiscalização da floresta

Dr. Lucas Azevedo
Monitoramento florestal por satélite

Conversamos com Dr. Lucas Azevedo sobre o que mudou na fiscalização ambiental desde que alertas de desmatamento passaram a ser publicados quase em tempo real. A entrevista foi editada para clareza.

Amazônia Sul: Quando você começou a usar imagens de satélite no trabalho de campo?

Lucas Azevedo: Em 2020, de forma sistemática. Antes, a gente dependia de denúncias e de mapas desatualizados. Hoje abro o painel de alertas e vejo onde a floresta caiu na semana passada. Isso muda completamente a conversa com moradores — e com os órgãos de fiscalização.

AS: O que o satélite ainda não consegue ver?

LA: Garimpo de aluvião em igarapé pequeno, por exemplo. A copa continua fechada. Seletividade de madeira também — tira árvore, deixa a floresta em pé, mas empobrece. E o incêndio subterrâneo em turfa, que às vezes só aparece semanas depois.

«O satélite não substitui o fiscal no chão. Mas sem ele, o fiscal vai para o lugar errado.»

AS: Os dados são públicos. Por que o desmatamento continua?

LA: Porque publicar alerta não é aplicar sanção. O gargalo é jurídico e político, não técnico. Um produtor rural que recebe embargo hoje pode estar operando com outro CNPJ amanhã. O satélite mostra o problema; não resolve a estrutura que o financia.

AS: O que melhorou de verdade?

LA: A velocidade da denúncia pública. ONGs, imprensa e comunidades indígenas usam os mesmos mapas que o Ibama. Isso cria pressão que não existia quando o dado ficava trancado em relatório interno. E em alguns estados, a integração entre alerta e operação de campo ficou mais rápida — ainda insuficiente, mas melhor que há cinco anos.

AS: Qual o próximo passo?

LA: Integrar alertas de degradação, não só de corte raso. E garantir que os dados cheguem às comunidades afetadas antes de chegar à imprensa em São Paulo. Quem mora na floresta precisa ser o primeiro a saber — não o último.