Ciência

Biodiversidade em Rondônia: o que os inventários recentes revelam sobre espécies ainda sem nome

Fernanda Iriarte
Floresta amazônica em Rondônia

Rondônia perdeu quase um quarto da cobertura florestal original nas últimas quatro décadas. Mas o que resta ainda guarda surpresas que a ciência mal começou a contar.

Em abril, uma equipe do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia concluiu um inventário de dois anos em áreas de transição entre floresta ombrófila e cerrado no sul do estado. O resultado preliminar: 47 espécies de invertebrados provavelmente novas para a ciência — e isso contando só o que coube no laboratório até agora.

O problema do "ainda sem nome"

Descobrir uma espécie é só o começo. Descrevê-la formalmente exige coleta de tipo, revisão bibliográfica, publicação em periódico especializado. O processo leva anos. Enquanto isso, a floresta onde o espécime foi encontrado pode deixar de existir.

A bióloga Mariana Klink, que coordenou o levantamento, me explicou a lógica: "Cada espécie sem nome é um argumento jurídico fraco. Se não está catalogada, não entra em estudo de impacto ambiental."

O que os dados mostram

Os inventários recentes em Rondônia apontam três padrões:

  • Alta riqueza de insetos em bordas de floresta — justamente onde a pressão de desmatamento é maior
  • Registros de anfíbios em altitude baixa que antes só apareciam em inventários do Acre
  • Queda abrupta de diversidade funcional em áreas com histórico de queimadas repetidas

Floresta como arquivo

Há quem veja contradição em estudar borboletas enquanto o desmatamento avança. Mas os pesquisadores com quem conversei enxergam o inventário como arquivo vivo: o que se perde sem ser registrado, perde-se duas vezes.

O desafio agora é acelerar a descrição formal sem sacrificar rigor — e garantir que os dados alimentem decisões sobre onde proteger, não apenas museus.