Itaituba não aparece nas manchetes todo dia. Mas é dali que parte boa parte do ouro extraído ilegalmente no sul do Pará — e o caminho até os garimpos passa por rios que abastecem dezenas de comunidades ribeirinhas.
Passei três meses na região, entre março e maio de 2026, acompanhando operações do Ibama e conversando com moradores de São Luiz do Tapajós, Jacareacanga e vilas menores que não têm nome no mapa oficial.
O que os mapas não mostram
Os alertas de desmatamento do Deter capturam a abertura de clareiras. O garimpo de aluvião, que segue o leito dos igarapés, deixa uma assinatura diferente: a floresta continua de pé, mas o rio muda de cor, de cheiro e de peixe.
Em uma das comunidades que visitei, a professora Dona Raimunda me mostrou cadernos dos alunos de 2024 e 2025. Nas redações sobre "o rio da minha infância", as crianças descrevem água barrenta onde antes nadavam. Nenhum desses relatos entra nos relatórios técnicos.
«O garimpo chegou de barco, de noite. No outro dia o igarapé estava branco.» — morador de comunidade ribeirinha, nome omitido por segurança
Fiscalização com atraso
As equipes de fiscalização que acompanhei são competentes, mas chegam sempre depois. O ciclo é previsível: denúncia, mobilização, operação, destruição de equipamentos — e, em semanas, retorno da atividade em outro ponto do mesmo garimpo.
Um fiscal me disse, sem rodeios: "A gente apaga incêndio. O incêndio volta porque a madeira continua lá." Ele se referia à estrutura econômica que financia os acampamentos — não apenas aos retortas queimados nas operações.
O que fazer com isso
Esta reportagem não termina com solução pronta. Termina com uma pergunta que os moradores repetem: quem vai ficar quando a equipe de fiscalização for embora?
A resposta, por enquanto, é ninguém. E é por isso que o garimpo avança.